12 de janeiro de 2012

O imaginário conspirativo

Pronto: não há nada como um tema que ninguém percebe, mas sobre o qual toda a gente opina, para criar o efeito de folga nas costas – neste caso enquanto o pau vem. De repente, a raiz dos nossos males passou a estar no facto de altas esferas da sociedade pertencerem, supostamente, a sociedades secretas. Embora tais organizações até tenham presença institucional na Internet e os líderes – presentes e passados – dêem entrevistas e prestem esclarecimentos nessa qualidade. No imaginário conspirativo de uma opinião pública que, por herança história ou razão genética, ainda é nas trevas que se sente confortável, temos aqui um labirinto subterrâneo, infindável, que – olha a sorte! – nos distrai do que acontece à superfície. E eis que regressa (por alguma coisa dizem que a História é como um pêndulo) uma compulsão inquisitória que quando existiu no passado o que nos deixou foi mais pobres. Assim como noutros tempos chamar «judeu» a alguém era a pior das ofensas, e mais na idade contemporânea era insulto dizer «comuna» ou «facho» (conforme as tendências), agora parece que recuámos cem anos: «Tu és maçom!» é um clamor de que os antigos ainda se lembram. Muito usado no período entre revoluções, da primeira República para a segunda. O que veio a seguir foi uma ditadura de meio século, durante a qual todo o funcionário ou representante público, além de apresentar um atestado de bom comportamento moral passado pelo pároco, tinha de se prover de declaração de repúdio ao Partido Comunista ou a outras formas de subversão. Que estranha semelhança, para não dizer perigosa semelhança, com o que agora se está a sugerir. E que ironia que sejam pessoas como Mota Amaral ou o Cardeal de Lisboa a declarar tal ideia como disparate. Mas por que não entrou o regime no mesmo turbilhão, por exemplo, quando em 1998 o primeiro-ministro socialista Guterres empatou a lei da despenalização do aborto (foi preciso esperar nove anos) por manifesta obediência à consciência católica? Ou quando, no auge do processo Casa Pia e no dia da detenção de um deputado do PS, em 2003, todo o topo do Estado achou melhor não cancelar a ida à final da taça UEFA, em Sevilha, que classificou como «trabalho político»? Isto só para citar duas organizações, a religião e o futebol, que têm manifesta influência sobre este país – às vezes, até, uma influência lesiva. Mas nestes casos, de facto, estamos a falar de rituais que a maioria da população pratica. E sempre é mais fácil sublevarmo-nos contra aquilo que não entendemos.
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]

11 de janeiro de 2012

O corrimão do lixo

Há coisas que não se entendem, mas pode ser que alguém se digne explicá-las e demonstre que têm uma razão de ser. As taxas de recolha e tratamento de lixo sofreram, na Guarda, um aumento brutal. O valor que o cidadão paga, de maneira coerciva, na factura dos Serviços Municipalizados, vai supostamente para as empresas que fazem a recolha do lixo e a limpeza urbana. Empresas que, com frequência, declaram ter em atraso por parte da intermediária a autarquia o pagamento desse serviço. Um atraso que se existir por parte do cidadão poderá levar a juros de mora ou ao corte do fornecimento de água. Mas neste quadro alguém se lembrou de enfeitar contentores de lixo com delimitadores metálicos. Já se vêem, um pouco por toda a cidade. Alguma parte (a Câmara, as juntas de freguesia ou a empresa que cobra um serviço à Câmara) terá entendido que podia desbaratar o que pagamos em taxas de recolha de lixo num tipo de inutilidade bricoleira. Aquilo não serve para nada. Podia ser a cereja no cimo do bolo, se a cidade estivesse arranjada, ordenada, regenerada e reabilitada e ainda sobrasse dinheiro. Mas está longe de ser este o caso. O único facto visível é que custa dinheiro. O que leva às conclusões que cada cada qual quiser tirar.
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]

6 de janeiro de 2012

Uma causa comum

O futuro da Maternidade da Guarda deixou de ser, pelo menos, tema tabu ou matéria reservada aos ínvios caminhos das magistraturas de influência. Afinal, existe um problema. E falar dele não é tão contraproducente como às vezes pintavam (como se chamar a atenção para as coisas fosse a raiz dos fracassos).
Já ouvimos demasiadas explicações, em todos os ciclos de poder da última década ou década e meia, sobre a calma que era preciso manter enquanto as forças vivas se mexiam nos corredores do poder e tentavam defender-nos com discrição.
O resultado foi, nas mais das vezes, terem-nos passado ao lado estratégias, decisões e investimentos – que outros aproveitaram. Tudo isto com o silêncio e o desinteresse da comunidade, que é tão mau, senão pior, como a falta de liderança.
Ao lançar, ela própria, uma campanha em defesa da Maternidade, fazendo questão de alertar que o que está em causa é mesmo a continuidade do serviço, a Unidade Local de Saúde da Guarda toma uma decisão aparentemente sensata em vários planos.
Desde logo porque assume que existe um problema, que poderá significar a perda de uma valência cujo fim arrastaria muita da importância da Guarda na área da saúde.
Depois, porque enfrenta esse problema e com isso envolve todos aqueles que têm que sentir que a questão lhes diz respeito, a começar pelos profissionais de saúde. E também porque, assumindo-se parte reivindicativa, a unidade de saúde já não pode vista como estando outro lado da barricada.
Por fim, o mais importante: dá o exemplo e passa a ter voz para exigir tanto ou mais empenho das forças vivas e da sociedade em geral.

A fragilidade destas causas, que deviam ser colectivas, consiste normalmente num lavar de mãos: os políticos que decidam e os técnicos que cumpram, concordem ou não.
Agora parece que não será assim. E a menos que o entusiasmo esmoreça teremos pela primeira vez condições para nos unirmos à volta de algo.
Oxalá que, a partir do exemplo da Maternidade, surja uma saudável competição, a ver quem mais faz e o quê.
Porque a Maternidade é só um detalhe – mesmo sendo o detalhe primordial.
Para haver nascimentos na Guarda, é preciso haver quem nasça – e quem encontre na Guarda razões para ficar e decidir fazer nascer.
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]

5 de janeiro de 2012

Empobrecer por falta de exigência

Afinal, a moralização do programa «Novas Oportunidades», que tanto deu que falar na campanha eleitoral, tem como resultado o fecho do único centro que na Guarda dava algumas garantias de exigência, na medida em que era gerido por uma escola secundária, a Afonso de Albuquerque, e tinha como público-alvo aqueles alunos que não conseguiram, na devida altura, concluir o nono ano ou terminar disciplinas do décimo segundo. No fundo, a escola seguia o espírito da educação para adultos, muito diferente do esquema que concede, em escassos meses, uma certificação que para todos os efeitos equivale à habilitação mas nem sempre obedece a padrões de rigor. Basta conhecer minimamente algumas das instituições envolvidas.
Criticou-se – e bem – o aumento da qualificação por via estatística, conseguido à custa da emissão de diplomas de valor discutível. Questionou-se – e bem – a idoneidade de algumas entidades que certificam os conhecimentos. Mas eis que na Guarda a sacrificada é aquela que procurava conciliar modelos, programas e requisitos.
Há muitas maneiras de atingir o empobrecimento para o qual nos dizem que devemos estar preparados. A falta de exigência é uma delas. E mais grave que a falta de dinheiro.

[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]

4 de janeiro de 2012

Persistência para realizar o impossível

Uma pessoa a certa altura também se farta de ser tomada como tonta ou extravagante só por fazer as tais perguntas que não lembram ao diabo. Ontem fizemos mais uma: como é que a Guarda está a posicionar-se para acolher eventual investimento chinês? Fomos recebidos, de novo, com aquele sorriso complacente dos que acham que insistimos em fingir que vivemos noutro mundo.
A questão é que nós insistimos em viver aqui e alimentamos continuamente esta quimera que é fazer com que o Mundo seja… aqui!
Por isso, repetimos hoje diante de todos a pergunta: por que é que a Guarda não há-de estar já a mexer-se, para atrair uma parte do estímulo à indústria e à economia nacional prometido pela multinacional chinesa que comprou a posição maioritária da EDP?
Um dos investimentos garantidos será uma fábrica de aerogeradores, vocacionada para o mercado europeu, que passará a representar qualquer coisa como 500 milhões de euros anuais nas exportações portuguesas.
Se o que não falta na região da Guarda é espaço, nem acessibilidades directas e eficientes por via rodoviária e ferroviária ao resto da Europa, por que não havemos de ambicionar este investimento, tal como ambicionámos – ainda se lembram? – várias fábricas de componentes para torres eólicas do consórcio Iberdrola/Gamesa (um projecto de 2006, fracassado)? Tal como podíamos ter ambicionado a área comercial que a IKEA desistiu de localizar em Gaia (em vez de termos achado a ideia irrealista). Tal como podíamos ter ambicionado o centro de dados da PT, em vez de termos sido apanhados de calças na mão, sem nunca termos sequer manifestado interesse num investimento que acabou por se localizar na Covilhã (por ser uma cidade… alta e fria!). Tal como podíamos ter ambicionado outro destino, que não o vazio, para antiga Delphi.
Há duas características que a mentalidade chinesa valoriza: a ousadia e o pragmatismo.
Com certeza que são muitas, neste momento, as cidades que se posicionam para receber investimento. Mas na Guarda acham graça a que façamos a pergunta. O que é revelador de algo muito preocupante: não se sentem capazes de imaginar tal hipótese; e nem sequer fazem ideia de como é que ela poderia ser desenvolvida.
Esta é a realidade. Triste mas autêntica.
Teremos de nos adaptar a ela, e pensar todos por ela? Não. Prefiro que sigamos um provérbio chinês: «A persistência realiza o impossível».
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]