4 de janeiro de 2012

Persistência para realizar o impossível

Uma pessoa a certa altura também se farta de ser tomada como tonta ou extravagante só por fazer as tais perguntas que não lembram ao diabo. Ontem fizemos mais uma: como é que a Guarda está a posicionar-se para acolher eventual investimento chinês? Fomos recebidos, de novo, com aquele sorriso complacente dos que acham que insistimos em fingir que vivemos noutro mundo.
A questão é que nós insistimos em viver aqui e alimentamos continuamente esta quimera que é fazer com que o Mundo seja… aqui!
Por isso, repetimos hoje diante de todos a pergunta: por que é que a Guarda não há-de estar já a mexer-se, para atrair uma parte do estímulo à indústria e à economia nacional prometido pela multinacional chinesa que comprou a posição maioritária da EDP?
Um dos investimentos garantidos será uma fábrica de aerogeradores, vocacionada para o mercado europeu, que passará a representar qualquer coisa como 500 milhões de euros anuais nas exportações portuguesas.
Se o que não falta na região da Guarda é espaço, nem acessibilidades directas e eficientes por via rodoviária e ferroviária ao resto da Europa, por que não havemos de ambicionar este investimento, tal como ambicionámos – ainda se lembram? – várias fábricas de componentes para torres eólicas do consórcio Iberdrola/Gamesa (um projecto de 2006, fracassado)? Tal como podíamos ter ambicionado a área comercial que a IKEA desistiu de localizar em Gaia (em vez de termos achado a ideia irrealista). Tal como podíamos ter ambicionado o centro de dados da PT, em vez de termos sido apanhados de calças na mão, sem nunca termos sequer manifestado interesse num investimento que acabou por se localizar na Covilhã (por ser uma cidade… alta e fria!). Tal como podíamos ter ambicionado outro destino, que não o vazio, para antiga Delphi.
Há duas características que a mentalidade chinesa valoriza: a ousadia e o pragmatismo.
Com certeza que são muitas, neste momento, as cidades que se posicionam para receber investimento. Mas na Guarda acham graça a que façamos a pergunta. O que é revelador de algo muito preocupante: não se sentem capazes de imaginar tal hipótese; e nem sequer fazem ideia de como é que ela poderia ser desenvolvida.
Esta é a realidade. Triste mas autêntica.
Teremos de nos adaptar a ela, e pensar todos por ela? Não. Prefiro que sigamos um provérbio chinês: «A persistência realiza o impossível».
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]

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