17 de abril de 2012

Elevar o debate político

Desde que Manuel Meirinho veio, no ano passado, para cabeça de lista do PSD às eleições antecipadas que a vida política local não tinha uma notícia diferente. Podia dizer: uma boa notícia; mas não há notícias boas nem más, há notícias (o que, da maneira como as coisas estão, já é bom). Não é que a Guarda tenha beneficiado, por aí além, da eleição do catedrático natural do Soito para deputado. A questão é que, fruto de uma degradação da vida política local – que não se percebe, pois não é por falta de gente, talvez seja por falta de vontades –, caía-se no risco de que os eleitores deste distrito ficassem na contingência de escolher, para primeiros representantes na Assembleia da República, entre um Carlos Peixoto e um José Albano. Entenda-se que nada tenho no plano pessoal contra nenhum. Nem contra nem a favor. Não são do meu relacionamento e, se eu fosse amigo deles, dir-lhes-ia olhos nos olhos o que penso, com a exigência e a franqueza que julgo devidas entre amigos. A minha análise é, pois, no plano político. E refere-se a situações, nunca a pessoas. Mas a verdade é que o resultado de três-um do PSD em relação ao PS – o mesmo PS que à última hora arregimentou Paulo Campos mas não evitou as faixas nos comícios com “força, Zé Albano!” nem a patética campanha autónoma centrada no ego do presidente da federação – não terá resultado de outra coisa que não de uma reacção dos eleitores a toda esta inacreditável exibição do princípio de Peter e da lei de Murphy. A notícia agora diferente é a de que alguém com o calibre profissional e político de António Fonseca Ferreira se disponibiliza para concorrer à federação da Guarda do PS. Mais uma vez digo: não será por falta de alternativas; será, de novo, por falta de vontades. Mas, vendo o processo a partir de fora, penso não faria nada bem à vida política local que num partido de poder as opções fossem José Albano ou ninguém. Se quisermos ser rigorosos na percepção dos motivos pelos quais a Guarda está como está, facilmente encontraremos na debilidade das lideranças partidárias – e na falta de credibilidade pública, porque a questão não se resume a conquistar os partidos – um dos principais, e dos piores. Fonseca Ferreira poderá nem levar a candidatura até ao fim ou poderá, levando-a, nem ganhar. Mas o simples facto de aparecer e ter vontade de avançar já é um factor de qualificação da vida partidária e de elevação do debate político na Guarda. É assim que eu vejo as coisas, enquanto cidadão às vezes envergonhado de ser representado por certo tipo de gente que nunca fez nada na vida ou a quem não se conhece uma ideia, um projecto, uma realização ou uma causa (e aqui poderei estar a fazer uma avaliação abrangente e transversal). Digo mais: dê no que der, a disponibilidade manifestada por Fonseca Ferreira deve é ser aproveitada pela Guarda. Afinal, se desde 1997 todos os partidos têm feito programas eleitorais para o concelho baseados no Plano Estratégico da Guarda, não há melhor do que ir chamar quem o escreveu, para assim explicar o que quis dizer e demonstrar como é que se lá chega. Que é o que tem faltado.
[Jogo de Sombras, Rádio Altitude]


Foto: De um dos muitos comunicados à imprensa, sobre os feitos do líder, enviados pelo PS da Guarda, neste caso quando deixou a Assembleia da República (tinha sido eleito em 2009), para se nomear director do Centro Distrital de Segurança Social, em 2010. Uma manifestação «espontânea» e «de surpresa», que meteu almoçarada, aguardou-o em Celorico da Beira, onde «o distrito» lhe agradeceu o regresso.